textos da crítica

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O IMAGINÁRIO POÉTICO DE ROGÉRIO MOURTADA

Percepções, mostra de desenhos e gravuras de Rogério Mourtada, é uma sinopse significativa de sua produção realizada nos últimos anos. O artista, aguçado por sua natureza como observador sensível das “coisas” e “da vida”, tem uma característica peculiar em ligar e construir o seu mundo expressivo e espontâneo. Suas obras mostram situações visuais que, aparentemente, abrangem aspectos diferentes e até mesmo antagônicos do nosso mundo, reinterpretando-os com essência poética. Valoriza a natureza, cenas do cotidiano, a arte e sutilmente denuncia injustiças e desigualdades do contexto social.

Rogério é um artista com senso estético apurado, tanto ao representar formas mais perceptíveis, como nas gravuras, quanto na descontração e simplificação das formas, como no desenho “Dois cavalos” da série “Procissão”, que chega a soar um minimalismo profundo, parecendo construir com poucos elementos a síntese de uma representação inicial.

O artista parece coadunar o “ar” de uma obra de Malevich com a persistência de Picasso, em que vale mencionar a fixação desse último pelo touro, criando obras numa tauromaquia genial. Mourtada enfoca o rinoceronte, mamífero atualmente ameaçado em extinção e que fora eternizado por Dürer, em 1515, como um verdadeiro ícone da ciência e da arte. Rogério disseca o rinoceronte e o reconstrói com seu pulso energético, enaltecendo o esbelto animal. A série Rinos nos contagia pela elegância.

Somente esse breve enfoque sobre o artista e sua obra já seria suficiente para perceber que Rogério Mourtada não é um artista preocupado em seguir esquemas condicionantes e determinantes de alguma suposta elite crítica em voga. A sua marca como artista é registrada pela sua personalidade e caráter que o faz criar com grandes propriedades ao articular imagens e compor esteticamente.

É importante registrar que há interligação de suas obras, quer sejam avulsas e distintas, quer sejam temáticas e seriais. Essa interligação ocorre pelo seu modo de trabalhar, de traçar linhas e compor o espaço bidimensional com o claro e escuro, pelo seu foco de análise visual das cenas criadas e retratadas. Homenageia artistas como Tarsila e Guignard, valoriza a cultura popular ao reinterpretar cenas, aprecia a simplicidade e a natureza, assim como fez ao interpretar Lisboa e sua paisagem.

Certamente o seu convívio em Portugal, onde reside atualmente, encantou ainda mais o seu repertório expressivo que com linhas sutis transmite o singelo e o frescor das cenas portuguesas.

O artista está intimamente ligado com gente que vive, trabalha e prima por justiça. A série “Incluídos pela Exclusão” tem um forte teor de denúncia, como um brado a favor da justiça e igualdade para todos.

No contexto do modo de trabalhar com as matrizes em gesso, o artista ao usar a cor escura de fundo constrói um mundo imagético de fácil identificação, como uma marca sua de criação. Um dos mais recentes trabalhos do artista foi o “Casal na Estação da Luz”, local em São Paulo por onde passa toda a sorte de transeuntes. Creio que esta obra é uma das mais expoentes em sua carreira e representa muito bem a sua primazia e talento artístico.

Tecnicamente impecável no seu contexto de gravura, que difere do tradicional, o artista coloca no casal todo o seio de uma representação, sugerido pelo título. Assim como na “vida”, a obra não somente representa o que parece e sim o que emana. A Estação da Luz é um marco da cidade de São Paulo. As linhas férreas que traçavam os caminhos por locais distantes tinham a Estação da Luz como sua passagem constante. Por ali chegavam os imigrantes que vinham ao Brasil de vários lugares e países. Ir ou passar por São Paulo era inevitável, era uma tentativa de alçar novos rumos e esperanças de um futuro promissor.

Hoje a Estação da Luz, embora esteja em seu entorno aliada com a maior conexão metrô-ferroviária da América do Sul, cuja estimativa seja de cerca de 300 mil pessoas que passam por ali diariamente, mostra sem dúvida um suposto progresso degradado, com muitas pessoas sem moradia, maltrapilhos, prostituição e viciados, juntando com o corre-corre dos trabalhadores e da multidão.

O casal proposto pelo artista mostra a princípio a construção técnica entre claros e escuros, duas pessoas que se contracenam e coadjuvam. São figuras retratadas em sua palidez, como vultos, assim como a representação de Cristo no Santo Sudário. As figuras não precisam de nitidez, representam o “humano”, a condição de ser “pessoa” e “cidadão”. Elas se consubstanciam no sofrimento, com segredos e silêncio em torno do amor ao próximo, mesmo diante de uma desesperança.

É do “amor” e “compaixão” que o artista fala alto. É sobre a desigualdade social, não importando se representa um pai ou uma mãe, um padre ou uma freira, mas o “humano” que existe em nós, a chama de viver na condição de ser um agente na sociedade e no mundo. O casal exprime o silêncio de ver calado e não ter como agir, de se sentir incapaz de gerar alguma mudança profícua diante da estupidez do ser humano. Não se trata de consentimento ou aceitação, mas de “amor” e de “auxílio” ao próximo. Não se trata de religião ou ceita, mas de algo existente na condição de “ser” e “estar”, de “viver”. Esta obra reflete o estado de espírito da sociedade atual. É um chamamento à percepção de nosso mundo, à tomar consciência do que fizemos e fazemos. Trata-se de apontar a solidão na metrópole.

Rogério Mourtada é poético. Mostra, numa construção hábil de linhas e contornos, a poesia visual de lugares e cenas. De modo eficaz apresenta a “simplicidade”, a “beleza da natureza”, os encantos da cultura popular, da arte e dos artistas. Noutra vertente criativa o artista denuncia a incivilidade humana, enfocando sobre a condição dos “excluídos” na sociedade.

Conhecer e perceber o encanto das obras do artista é saber ver a interligação dos opostos, a relação da beleza e da crueldade em busca do equilíbrio da condição humana para um melhor viver e estar no mundo.

Prof. Dr. Paulo Cheida Sans

                                       Professor da Faculdade de Artes Visuais da PUC- Campinas

                                           Diretor Curador do Museu Olho Latino, Atibaia, SP – Brasil

2013

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LISBOA PERTO E LONGE

A Lisboa de Rogério Mourtada é o resultado de um olhar que ganha distância para melhor ver, pleno de lirismo, de um falso realismo, que encontra na recusa da exacta descrição a sua verosimilhança. As Paisaens urbanas apresentadas não existem, os telhados e campanários estão recolocados numa geografia inventada, mais verdadeira que o real, que confere a cada peça um valor metafórico – traços perenes de uma cidade que tem um carater, que a nós lisboetas muitas vezes escapa, porque transparente. Atente-se nas grades de ferro forjado dos vandins, quase só sugeridas, nos pombos irriquietos das clareiras de pedra ou solitários e imóveis nos beirais. O artista refaz para nós uma cidade poética, um casario em cascata, ornado de floreiras e plantas luxuriantes, palmeiras que temperam o bafo quente do sol de verão e deixam à vista a luminosidade inconfundível de Lisboa.

António Melo

Conselho Cultural do ISPA

2013

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série paisagens em lisboa – lua a nascer – 2010

 

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INCLUÍDOS PELA EXCLUSÃO – UM OLHAR PARA A HISTÓRIA

O castigo e o silenciamento foram estratégias absolutamente comuns na instituiçao da escravidão e são elas, a meu ver, que impediram que, por tanto tempo, também a historiografia e o pensamento  em geral “optassem” por não ver… Os olhos da época, como os de Debret e de uma série de outros estrangeiros (penso mais especificamente nos oitocentistas), viam através de suas lentes europeias e iluministas, e mesmo românticas, como Rugendas ou Harro-Harring, mais combativos mas, ainda assim, prisioneiros do lugar de onde falavam e experimentavam o mundo.  Os olhos da posteridade, mesmo após o final da escravidão institucionalizada, demoraram a se abrir para entender e desvelar essa pungente realidade: a de que os pregos na madeira jamais desaparecerão, ou seja, os traços construídos pelas experiências do domínio do homem pelo homem, em condiçoes absolutamente desiguais, deixam marcas indeléveis! Os desenhos de Rogério Mourtada não nos deixam esquecer e prestam, acima de tudo, um importantíssimo papel à história (e à História), fazendo uso da arte para construir história e escrever História.

Valéria Alves Esteves Lima

Historiadora, autora do livro J.-B. Debret, Historiador e Pintor

2013

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O SERTÃO É O MUNDO

Texto a exposiçãoVEREDAS PARA O PONTO,a primeira em Lisboa, Organizada por António Melo.

 Conheci Mourtada em 2001, quando ele desenvolvia seus trabalhos como artista, arte-educador e monitor no Museu de Arte Contemporânea de Campinas – MACC, um dos mais importantes do estado de São Paulo. Havia deixado o Curso de Direito: definira um novo rumo para sua vida, as artes plásticas. Decisão acertada e adequada para um jovem que decididamente “não veio ao mundo numa viagem de negócios”.

Acertada ainda que difícil, sobretudo num país como o Brasil onde, qualquer artista, quando perguntado o que faz e responde “pintor”, “escultor”, “músico”, “poeta”, etc., é sempre imediatamente obrigado a ouvir a seguinte observação e pergunta: – “Entendi, você é artista, mas trabalha em quê?”Acertada ainda que difícil, num mundo como o atual, onde homens e mulheres, de acordo com as regras do establishment, valem apenas pelo que são capazes de consumir, e jamais pelo que são capazes de produzir – seja em termos de bens materiais, ou de riquezas impalpáveis como valores, princípios, uma nova ética, etc.

Um trabalhador das artes plásticas, um pensador das artes plásticas
Para homens como Mourtada, onde é impensável a falsa dicotomia entre “trabalho intelectual” e “trabalho braçal”, sempre hierarquizada a serviço da exploração dos últimos pelos primeiros, um trabalhador das artes plásticas é também um pensador das artes plásticas, do mesmo modo que um gari, um metalúrgico, um professor universitário, ou um médico pensam seus respectivos métiers, criam novos modos e métodos mais eficientes de realizarem seus trabalhos, organizam e executam braçalmente suas produções ao longo e nos limites e potencialidades dos seus respectivos tempos históricos. Nestes processos, reafirmam, ou contestam e subvertem as “normas oficiais” (ou oficosas – bem mais insidiosas, pois não enunciadas claramente).
E Mourtada pertence – por escolha e jamais por “destino” ou “missão divina” a essa segunda categoria de trabalhadores artistas.

O Modernismo Brasileiro enquanto ponto de partida
E é por isto que ele se dedica a retomar, desenvolver e atualizar, criando e apontando perspectivas para o futuro, várias discussões colocadas pelos melhores artistas da Arte Moderna Brasileira – sejam os paulistas de 1922, como Lasar Segall (na área da gravura), Tarsila do Amaral (esta, sobretudo, em seus desenhos de anotação, mas também nas composições dessa artista desenvolvidas com o francês Ferdinand Léger); sejam os da segunda geração (pós a crise de 1929), até os da segunda metade do século 20, como Goeldi, Carybé, Renina Katz (especialmente a da fase do “Romanceiro da Inconfidência”).
Aliás, significando e resignificando as mesmas e outras coisas, as pinceladas de Mourtada (sobretudo em seus cavalos, cavaleiros, cavalgadas e procissões) trazem os ecos de Carybé e Renina. Ao mesmo tempo, as paisagens que cercam algumas dessas obras, nos remetem ao sabor do aprendizado com Tarsila.
A temática do programa dos modernistas, no que diz respeito a trazer o povo e os trabalhadores para o centro da cena (como assunto-linguagem) é radicalmente retomada por Mourtada. Importante saber que seu caminho para as artes plásticas se definiu, tendo como de partida seu contato com as xilogravuras dos prelos populares que editam a chamada literatura de cordel, cantares/contares em versos (sempre em redondilhas maiores) de histórias lidas nas feiras, e nos serões das casas pobres do sertão e de todo o Nordeste brasileiro.
Foi a partir disto que desenvolveu todo um trabalho (que prossegue até hoje, ainda que não faça parte da presente exposição) entalhando placas de gesso enquanto matrizes de gravuras, impressas com guache branco sobre papel cartão preto. Com esse material de baixíssimo custo, tratou como assunto central, daqueles que o capital inclui no seu sistema a partir da “exclusão”: os miseráveis do mundo. São crianças e moradores de rua, desempregados, negros, índios, aleijados, deformados pela miséria, alcoólatras, travestis das periferias, prostitutas, enfim, todos aqueles cujas desgraças produziu o sistema que em seguida os estigmatizou e descartou. É um trabalho magnífico, obra de coerência monumental, onde os materiais (matriz, tinta e papel) e ferramentas (arames, grampos, pregos, parafusos velhos, pincéis baratos, madeiras entalhadas a canivete, estiletes produzidos a partir de qualquer pedaço de metal e outras sucatas), assunto e discípulos (crianças e jovens que vivem nas ruas de Campinas, muitas vezes sobrevivendo a partir de pequenos furtos ou esmolas) se amalgamam. Ou seja, formam um todo indivisível, onde forma, conteúdo, técnica, ferramentas, e discípulos já não mais se distinguem meio a tanta pobreza, tendo como resultado, porém, sofisticadíssimos trabalhos resultantes de uma estética enraizada na inabalável ética da igualdade e solidariedade com os oprimidos. E isto, sem jamais deslizar para a demagogia, para a denúncia fácil ou para a estereotipia do panfleto de segunda categoria.

Janelas abertas para o mundo: indispensável interação
Engana-se, porém, todo aquele que, a partir disso, concluir que o programa de trabalho/estudo deste artista brasileiro (agora residindo em Portugal) possa ter qualquer cunho nacionalista, ou qualquer viés xenófobo – coisa que mais cedo ou mais tarde ameaça sempre descambar em “macumba para turista” ou, o mais grave e mais comum, em alguma degenerescência fascistóide, tragédia de mesma matriz das políticas de perseguição de trabalhadores imigrantes, hoje retomadas no Hemisfério Norte com desenvoltura, desfaçatez e lógicas semelhantes às praticas dos anos 1930.
Mourtada sabe que desde os “Descobrimentos”, desde o Renascimento e o Mercantilismo, e sobretudo após a Revolução Industrial Inglesa, não se pode falar da História isolada de um povo, nação, ou Estado Nacional. A Globalização não é uma novidade.
Assim, a História da Arte produzida no Brasil liga-se também à História da Arte Universal, com a qual mantém um diálogo permanente, implicando influências recíprocas, tanto em termos das temáticas, quanto no que diz respeito aos conceitos, técnicas e soluções: da pincelada à composição. Sobretudo, no caso brasileiro, um diálogo intenso com o que se produziu na Europa Ocidental e em seguida nas Américas. Mourtada não tem qualquer dúvida a este respeito. O Brasil está no mundo. E como parte deste todo, dele tem marcada a memória.
E assim, juntamente com o estudo dos brasileiros, anda, no mesmo ritmo, a análise e estudo das obras de artistas e “escolas” de todo o mundo.
Ou seja, o estudo de Mourtada dialoga com o mundo, do mesmo modo como acontece com a História da Arte produzida no Brasil, e do mesmo modo como procederam nossos melhores modernistas.

As vanguardas russas e os caminhos de síntese
No encontro de despedida, em São Paulo, antes de sua partida para Lisboa (Março de 2008), Mourtada comentou que não poderia levar toda sua biblioteca. No entanto, havia muitos livros que não poderia deixar no Brasil – em geral, livros de estudo e consulta. E se deteve a falar do livro PONTO E LINHA SOBRE O PLANO, do russo Wassily Kandinsky. Há um par de anos Mourtada vem estudando as vanguardas russas do começo do novecentos, e sua atenção se fixou particularmente no suprematista Kandinsky – sobretudo depois que viu alguns dos seus trabalhos expostos numa mostra de arte russa realizada em São Paulo, em 2001.
É a partir do contato com Kandinsky e sua obra, que o trabalho de Mourtada intensificará sua busca de “enxugamento” e síntese cada vez mais radicais. Isto fica claro na presente exposição, na seqüência de vários trabalhos. Sim, uso a expressão “seqüência” propositalmente, pois não me parece que se trate da busca apenas de um resultado, mas, sobretudo, de um processo através do qual chegue a um despojamento cada vez maior da sua comunicação – aliás, um dos cânones caros aos modernistas brasileiros e que o artista sempre perseguiu.

Os pontos e as veredas

E é nesse caminho de síntese que esbarraremos no PONTO, o elemento que ao mesmo tempo encerra e abre outro espaço, outro tempo – outro espaço/tempo, pois, ao fim e ao cabo, é disto que se trata.
O discurso gráfico inicia-se sempre – lembra-nos o mestre Kandinsky – com o colocar a ponta do lápis (pena, caneta, vincador ou qualquer instrumento semelhante) sobre o plano (papel, tela, madeira, chapa de metal ou qualquer suporte que o valha),
É do deslocamento desse PONTO sobre o PLANO, que termos a LINHA, e é a partir dos deslocamentos desta, que construiremos a representação dos diversos planos.
Ou seja, o discurso gráfico/plástico resulta dos caminhos e veredas escolhidos pelo artista para o PONTO em seus deslocamentos sobre o plano. Assim começa, assim se processa, e será também com um PONTO final que o artista dá como acabado seu trabalho.
Mas, além do russo Kandinsky, uma outra importante referência compõe o título desta exposição.
A palavra VEREDAS, para qualquer artista brasileiro, remete imediatamente à obra de um dos maiores e mais importantes escritores da nossa literatura: GRANDE SERTÃO: VEREDAS, de João Guimarães Rosa.
É através de um dos personagens desse livro que o mestre Guima afirma: O SERTÃO É O MUNDO.
É parafraseando Guimarães Rosa, que Mourtada nos fala através do título que escolheu para sua exposição.

Alípio Freire

Jornalista e escritor

São Paulo, Janeiro de 2009.

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 ARTE DE ROGÉRIO MOURTADA

É muito gratificante quando encontramos talentos promissores no meio artístico. Rogério Mourtada é um desses poucos notáveis. Conheci sua produção artística há pouco tempo, mas o suficiente para perceber que é um artista excepcional. Claro que os anos vão se incumbir de comprovar esta minha afirmação. As obras realizadas até o momento já o credenciam, sem dúvida, como uma expoente revelação.

O modo autodidata de apreciar a cultura de seu meio revela um “olhar” ávido em busca de informações que possam enriquecer o seu repertório artístico. Concentra de modo especial a sua vocação para a arte sobre papel, originada por meio de matrizes de gesso. Compõe sua obra usando recursos da gravura, às vezes acoplando intervenções na cópia original, possibilitando um resultado misto de gravura e pintura.

As obras são geradas pelas matrizes, representando um temperamento regado à liberdade e autonomia, que não se limita aos moldes da ética da gravura. No momento , isso não lhe interessa nem o perturba. Para o artista, o objetivo principal é o efeito da obra resultante pelo uso da matriz criada e não pela possibilidade de reprodução da imagem. Quase sempre suas gravuras são cópias únicas.

Especialmente por causa do modo singular em conceber suas obras, Mourtada atinge um ápice técnico, conseguindo resultados fascinantes, tanto ao usar têmpera clara sobre papel escuro, quanto o inverso.

Pelo expressivo trabalho espontâneo, Rogério tramita o puro gosto de expressar, um exercício que enaltece as formas e feições, mesclando ternura e mistério nas personagens criadas, combinando a figuração adensada com a leveza organizacional dos elementos.

Nas palavras de Stephen Naschmanovitch a “obra de arte não é concebida na mente e então , numa fase distinta, executada pela mão. A mão nos surpreende, cria e resolve problemas por sua própria conta. Muitas vezes, enigmas que obstruem nosso cérebro são resolvidos com facilidade, inconscientemente, pela mão”.

Assim vejo a capacidade criativa de Rogério Mourtada, que sabe muito bem se expressar intuitivamente, (re)construindo o seu e nosso mundo, abalizado num improviso característico dos grandes gênios.

 Paulo Cheida Sans 

2004

 

 

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 A GRAVURA DE ROGÉRIO MOURTADA

artigo publicado no periódico Brasil de Fato, edição de ?, 2003

Desde as bombas atômicas jogadas pelo governo Harry Truman (EUA) em Hiroxima e Nagasaki (6 e 9 de agosto de 1945), vivemos num mundo onde não é mais possível o escândalo – como, antes, já disse André Breton.

Há poucos meses, um crítico de arte, durante uma descuidada passadinha pela repartição onde está lotado, deparou por acaso com um trabalho de Rogério Mourtada. Esbravejou:

“Gravura em gesso não existe. Isto é um escândalo. Tirem isto da minha frente”.

O trabalho foi retirado da parede. Negou as evidências: estava frente a uma gravura feita a partir de uma matriz de gesso e negava que existissem gravuras em gesso. Da mesma forma até as três primeiras décadas do século passado, não existiam gravuras em matrizes de linóleo. Picasso fez sua série de Touradas recortando linóleo. Então, elas passaram a existir.

Criar constitui parte inalienável do métier do artista – inclusive (e às vezes até sobretudo) no campo das técnicas, dos materiais.

O trabalho de Rogério Mourtada – um jovem de 25 anos – sustenta-se sobre três pilares, sendo que o último deles diferencia este artista não apenas dos gravadores seus contemporâneos, mas da própria História da gravura desenvolvida na (e a partir da) Europa. [1]

Primeiro, a coerência entre a técnica, o material escolhido, e a temática que desenvolve.

Segundo, matrizes em gesso – material de pouca resistência para a impressão precisa de um mesmo entalhe diversas vezes.

Terceiro (e talvez o mais desconcertante para muitos), a utilização dessas matrizes em sentido diverso daquele tradicionalmente assumido pela gravura – de multiplicar um mesmo trabalho, de reproduzir um mesmo discurso plástico/gráfico fechado.

Rogério transforma as impressões de suas matrizes de gesso em “palavras”, “ideogramas”, “pictogramas”, “signos”, “anotações mais ou menos breves” que – utilizadas sempre em novos contextos criados com o auxílio da pintura e do desenho; de pontos, linhas e planos; de massas compactas e transparências – se acoplam, se misturam, se baralham e se reorganizam criando um novo, mantida a visibilidade/identidade original da impressão que permanece identificável, sendo (em) outra coisa.

É bem verdade que, para não irmos muito longe, aqui mesmo no interior de São Paulo, há aproximadamente 60 anos, Cândido Portinari já coloria a lápis de cor pelo menos sua série de xilos sobre o Quixote. Mas este procedimento ainda estava ancorado de certo modo na tradição das gravuras aquareladas, comuns sobretudo no século 19.

Não é menos verdade também que os britânicos Jake e Dinos Chapman, há poucas semanas, surpreenderam a crítica internacional com suas intervenções em aquarela sobre uma tiragem completa de 80 gravuras originais do espanhol Goya, que compõem a série “Desastres da Guerra” (1810-1815). No entanto, neste caso, apesar da preciosidade do original escolhido, em termos de procedimento criativo – em que pese o talento, a ousadia e a pertinência da iniciativa para a denúncia do massacre inútil das guerras – esses súditos de SM Elizabeth II pouco se afastaram dos bigodes colocados por Duchamps sobre uma reprodução da Monalisa de Leonardo da Vinci.

É interessante perceber que, apesar dos Chapman serem naturais da Grã-Bretanha e Goya da Espanha – países cujos Governos dos atuais primeiros-ministros (Blair e Aznar) apoiaram as intervenções terroristas do Governo Bush contra o Afeganistão e o Iraque, alguns críticos e intelectuais fingem esquecer essa “coincidência”, e se manifestam de maneira – esta sim – bizarra, frente ao último trabalho dos dois irmãos. Para o brasileiro Ferreira Gullar, por exemplo, a criação de Jake e Dinos “É uma espécie de terrorismo cultural [que], como arte, não tem importância nenhuma”. Gullar permanece coerente: desde sempre e até hoje ele proclama que o endurecimento político levado ao limite pela Ditadura implantada no Brasil em 1964 se deveu aos grupos da resistência que pegaram em armas para enfrentar o regime, os quais ele classifica de terroristas – maneira malajambrada que esconde e justifica sua capitulação política (e do seu partido) frente ao golpe e ao subseqüente terror de Estado.

Os condenados à morte

O tema de Rogério é o mundo da exclusão. Os excluídos pela miséria, ou pelos padrões estabelecidos de normalidade – os diferentes. Mas diferentes também miseráveis.

Numa linguagem menos glamurizada: o tema de Rogério são os moradores-de-rua, pivetes, prostitutas-meninas, prostitutas em geral, adolescentes grávidas, vítimas do crime organizado e da polícia, idosos, mendigos, homossexuais, xifópagos, portadores das mais diversas deficiências físicas e mentais, dependentes químicos, índios, negros e mestiços – todos aqueles para os quais os neoliberais garantem não haver riqueza suficiente no mundo. Todos aqueles que, segundo essa doutrina, estão fora dos 30% a cujo bem estar dirigem os esforços de suas políticas econômicas. Os condenados à morte.

Mourtada os conhece bem. Não apenas tanto quanto nós que os vemos (muitas vezes sem enxergar) a cada esquina. Durante cerca de um ano, ele trabalhou ministrando oficinas de artes plásticas para crianças e adolescentes de rua, num projeto desenvolvido por uma organização não-governamental de Campinas (SP). Ali a regra era a de muitos dos seus alunos desaparecem das oficinas, para em seguida serem encontrados assassinados por grupos de extermínio, por outros pequenos bandidos, ou simplesmente recolhidos em casas correcionais ou prisões.

Antes, já fizera uma incursão em experiências com a técnica do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Nesse roteiro Mourtada – que abandona a Faculdade de Direito aos 21 anos para se tornar artista plástico – seleciona materiais, técnicas e constrói seu programa de trabalho e linguagem.

Material democrático

O gesso surge da necessidade não apenas de um material acessível, barato, onde gravar uma matriz, mas de um material dúctil para cuja gravação possam ser criadas pelo próprio artista ferramentas a partir de arames, metais variados, velhas lâminas e até madeira. A escolha do suporte (cartão duplex preto) segue a mesma diretriz, bem como a definição do guache enquanto tinta de impressão, desenho e pintura.

Para que todos os que queiram possam gravar.

“Se posso tomar um homem por tema, esse mesmo homem tem o direito de ser sujeito da mesma ação que desenvolvo quando o tomo por objeto. E esse não é um problema apenas de distantes secretarias de educação ou de cultura, ou de remotos ministérios”, diz

Parece-nos esta, a ética fundamental que substituirá/aprofundará aquela dos bons gravadores modernistas, que se ancorava antes de tudo no acesso e na apropriação pública do múltiplo/igual.

Será no quadro da ética que estabeleceu para si, que Rogério balizará as experiências a que dará curso, garantindo-lhes e definindo-lhes o conteúdo filosófico e os primeiros contornos da racionalidade que perseguirá.

Por outro lado, aos poucos – pois nada acontece de uma única vez – o autor vai percorrendo as diversas iconografias construídas em busca de firmar uma nova forma, uma nova figura. Aqui um Curupira ou um Saci como ponto de partida. Totens africanos cedem lugar a contornos de Botticelli que depois são substituídos por elementos com raiz em culturas ameríndias pré-colombianas. Formas orgânicas e, de repente, a intervenção de elementos geometrizantes. A pincelada construída, organizada dá espaço ao gestual. Mas as incisões precisas a ponta-seca, quando tudo ameaça descambar definitivamente para o intuitivo e/ou espontâneo, como um “piston de gafieira”, bota as coisas no lugar: o que está fora não entra e o que está dentro não sai. O que está em cima não voa, o que está embaixo não cai.

De qualquer modo, porém – e aqui reside outra importante grandeza do trabalho de Rogério – mesmo que seu tema sejam os condenados à morte, ao extermínio (e conseqüentemente à vala comum), seu programa exclui qualquer populismo, qualquer rebaixamento da linguagem plástica, qualquer miserabilismo. E é este compromisso que não apenas faz de Rogério um artista plástico, como confere ao seu objeto temático dignidade e força. Rogério recusa qualquer comiseração – antes, exige respeito aos personagens. No lugar do drama, o trágico

Possível tendência

A profusão de elementos e texturas das matrizes originais vêm paulatinamente (ainda que não de modo linear) cedendo espaço a um desenho e composição mais enxutos. Mais que isto: quando aquelas primeiras matrizes voltam a ser impressas depois de algum tempo, a ação do pincel toma o partido de atenuar os excessos.

As novas matrizes, as mais recentes, por sua vez, ganham a cada dia dimensões mais reduzidas com relação ao conjunto da composição, ainda que muitas vezes tenha sua impressão repetida diversas vezes no mesmo trabalho.

O preto do suporte, tão presente nos primeiros trabalhos, vai se tornando apenas pretexto para as diversas transparências do guache branco, que assume o primado do discurso plástico. Há uma clara intenção nisto tudo de busca de uma síntese maior. Mais ainda: revela-se uma preocupação cada vez maior com o olho do espectador, no sentido de conduzi-lo à informação plástica, à apreensão e diferenciação entre o essencial onde tema e linguagem se fundem, e o que é desdobramento ou acessório a essa fusão.

O processo de estudos que vem absorvendo o artista também nos dá alguns indicadores que, caso permaneçam, podem ajudar a configurar a tendência que tentamos discernir.

Juntamente com suas atividades acadêmicas (Rogério cursa Artes Visuais na Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCC) ele persegue, por um lado, toda uma atividade de leitura e debate de textos na área da teoria e da História da Arte. Por outro, desenvolve um processo permanente de reflexão e discussão de cada um dos seus trabalhos – sistematizando o seu saber prático, desenvolvendo elementos da sua técnica e da linguagem plástica (o que lhe tem garantido segurança para a criação de novos recursos). Intuitivos num primeiro momento, alguns procedimentos vão se transformando e passando a integrar a construção uma nova gramática.

Ou seja, a tendência geral de seu trabalho parece apontar – pelo menos neste momento – para uma construção onde, intencional e conscientemente, o autor exacerba uma tensão cada vez mais acirrada entre o intuitivo e o racional. E esse diálogo tenso e permanente razão/intuição – do nosso ponto de vista – é indispensável a uma grande obra.

Alipio Freire

2003

[1] Observamos que, pelo menos os canela, os apinajé e os xavante pré-cabralinos já usavam diversas matrizes em madeira cuidadosa e caprichosamente entalhada ou superfícies originadas de cortes de frutos para imprimir, com tinta, desenhos rituais no corpo ou em vestes e utensílios. Embora a matriz produzisse sempre um mesmo motivo, este se compunha e se repetia diferentemente na pele ou nos tecidos. Carimbos?

 

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SOBRE A ARTE DE MOURTADA

Prof. Doutor Marcos Rizolli – 2004

Apresenta-se, aqui, um universo visual em branco e preto. Um elogio em alto contraste à contemporaneidade da imagem. São gravura-pinturas-desenhos da atual lavra de um artista plástico representante da novíssima geração da arte brasileira: Rogério Mourtada.

Exclusiva expressividade sobre papel. Que orienta uma intencionalidade poética que faz dialogar os valore de matriz, de forma e de linha . Melhor definido! Os elementos figurais antropomórficos são dispostos numa genuína técnica de sulcagem formal – que impressiona recortes superficiais de mantas de gesso.

Surge, antes, a forma gravada. O espaço absolutamente negro do suporte apreende amplas e brancas pinceladas interessadas na abertura de campos pictóricos dispostos à justa convivência entre as figuras e os seus neutros cenários. Dos efeitos de montagem e de repetição surge, agora, a imagem pintada. Num procedimento que impões sutis intervenções compositivas, o artista age sob um processo de refinada des-pintura. Diante da umidade das alvas tintas – gravadas e pintadas – reinventa a linha. Surge, depois, o desenho.

Invertendo a técnica para melhor dimensionar a expressão, podemos indicar que o seus dsenhos-pinturas-gravuras determinam um movimentos criativo que expõe múltiplas densidades materiais e proliferantes discursos visuais. Tudo, contudo, na singularidade de ser artista!

Prof. Doutor Marcos Rizolli

Professor Universitário; Pesquisador em Linguagem Visual;

Crítico de Arte; Curador Independente

2004

 

 

MOURTADA’S TALENT

Based on the assumption that art is not a subject but form and concept, it’ll be fertile to observe Mourtada’s technique. I am not talking about a formalist artist because that would hide his academic side. More than that, contemplating his work is a unique experience which deconstructs the main values of the engraving, painting or drawing. The textures, the depth, the game between black and white, the environment, all these elements have strong parallel with the Argentinean Guilllermo Kuitca’s painting. The way he combines and treats his image, using games of planes, deconstructs the immediate senses. He never abandons the invitation to the harmony, he actually reinforces it. In this surface there’s also the sense. Mourtada engraves with plaster his archetypes inviting to participate. His work evocates the memory so as to subsidize a narrative whose core is the collectivity destiny. The artist is intimately connected to this destiny and worried with its conditions. Nevertheless, before denouncing with falsely daring plastic constructions, he prefers to wound us with these pictures which take us to a common past, to a fraternal humanity, almost utopian.

Emerson Dionísio

Diretor do Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti

2005